| Por vezes perco a noção do tempo, e quando volto a mim ouço o apitar das portas que se fecham, e vejo o comboio a partir sem mim. Mas bem, de dia tenho outro 15 minutos depois, de noite tenho mais 15 minutos para ficar a pensar, ou a dormitar. O problema é quando é o último.
Comboio da meia noite e qualquer coisa |
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Abrando,
após uma corrida para ganhar alguns minutos. Não estou propriamente em perigo
de perder o comboio, mas não quero arriscar. São 00h42 e o comboio parte às dez
para a uma. Entro na estação do Rossio, e olho para o enorme relógio de
ponteiros que está preso... construído na parede, 00h43. Estou safo, vou
apanhar o comboio. Ponho-me languidamente na escada rolante, ofegante e com a
garganta apertada. No topo das escadas aparece aos poucos o monitor com o
horário. Próximo comboio às: 00h42 - Linha: 04. Recomeço a correr, são
precisamente 00h44, e ainda está assinalado no ecrã o comboio das 00h42, alguma
coisa não bate certo, mas os degraus da escada rolante são grandes demais para
pensar nisso. Chego à plataforma e lá está o comboio, parado de portas abertas,
acelero e salto para dentro da carruagem à espera de ouvir a qualquer momento o
apito de fecho das portas. Nada apita, a não ser o telemóvel de uma senhora que
está sentada com a mala ao colo. Por
hábito costumo ir até ao fundo, neste caso, à ponta do comboio pois dá mais
jeito para sair no Cacém, mas a lotação nesta particular noite impede-me de
andar mais do que alguns metros pela carruagem. O ar está abafado e parece que
não vão aumentar o ritmo de renovação do ar. Os passageiros mais próximos das
portas vão-nas abrindo à medida que estas fecham, pela maior eficácia do ar
condicionado. Não
tenho lugar onde me sentar, fico de pé entre as duas filas de bancos, pois o
espaço ao pé das portas está bastante preenchido. Passados alguns minutos o
comboio arranca. Não sei porque se atrasou e parece-me que nunca vou saber. De
repente a multidão que preenchia esta carruagem desapareceu, espalhando-se
pelas outras carruagens, outra coisa que nunca conseguirei explicar. Aparecem
lugares vagos, sento-me num. Para meu espanto, conheço o senhor da cadeira da
frente. Conheço... de vista, de viagens partilhadas. É taxista e vive na casa
da sogra com a mulher, ao que parece a senhora faleceu e o genro quer livrar-se
da casa pois precisa de dinheiro, está o caso em tribunal. Sei isto de outras
viagens, de o ouvir conversar com colegas taxistas. Colegas esses que estão nas
cadeiras ao lado a jogar à moeda: "Ora uma não se pede... duas!". Sei
também que o senhor mora para lá do Cacém, pois saio sempre antes dele. Tem um
ar triste e cansado, parece ter uns sessenta e picos anos, mas penso que deve
ser mais novo. Ao
meu lado, junto da janela, estão dois rapazes brasileiros que vão falando das
suas mulatinhas e das mulatinhas dos outros... "Eta mulherão!". Quando
entrei no comboio meio afogueado, vi o que me pareceu ser um assalto esquisito.
Um grupo de rapazes falava calma, mas agressivamente com um senhor dos seus
cinquenta e picos tatuado nos braços que apenas dizia: "Sim, sou um
senhor.". Isto porque um deles, talvez o menos inclinado para a vida nas
ruas, dizia: "Devolve a carteira ao senhor meu...". Pensei nisto
porque precisamente agora aparecem dois seguranças. Estão parados a falar muito
animados... talvez sobre o jogo da bola, digo talvez porque não os ouço,
consigo vê-los através dos vidros das portas que ligam as carruagens. Vejo-os a
serem transportados bruscamente da esquerda para a direita, enquanto o comboio
faz as curvas. Dá quase vontade de me levantar e ir à outra carruagem dizer às
pessoas: "Boa noite, venham aqui para a minha carruagem, é bastante mais
confortável pois não abana tanto quanto a vossa!". O que mais me apoquenta
é que se o fizesse mesmo, acho que ninguém sequer me responderia. O
comboio pára. Onde estou? Reboleira. Os rapazes do lado saem, ocupo o lugar de
um deles, o sono ocupa o meu lugar e adormeço encostado à janela. Sonho, mas
não me lembro com o quê ao acordar. Estou em Barcarena e a seguir é o Cacém. Tiro
o telemóvel do bolso, ponho-o em silêncio e enfio na meia do pé direito. Morar
nos arredores de Lisboa faz-nos ficar assim, mais alerta e mais aptos a
sobreviver em ambientes mais agressivos, inventando mil e uma tramas.
Levanto-me e começo a caminhar em direcção à ponta do comboio para conseguir
passar pela frente dele para o outro lado da estação antes que ele parta de
novo, seguindo para Sintra. Vou a caminho de casa. Vou demorar cerca de dez minutos a chegar. De mãos nos bolsos, olhos nas sombras fugidias e ouvidos nos becos mais silenciosos, faço o trajecto alerta. Demoro mais a descer para a estação de dia, do que a subir para casa de noite, e é bem a descer. Cheguei ao prédio. Vou para casa dormir, amanhã vou perder uns quantos comboios enquanto rebolo na cama. Quantas pessoas não vou conhecer, quantos sonhos não vou sonhar? |