Há uns tempos que não escrevia nada, ontem apeteceu-me escrever este rascunho para uma história maior. Está boa assim, mas quero tentar aumentá-la e pormenorizá-la.

Quanto tempo dura uma folha de papel?

Primeira marca de água

 

            Encontrei outra folha. Desta vez Kaew deixou-a bem à vista em cima da minha cama. É incrível como manteve a sua caligrafia perfeita, ondulada e fugidia como sempre e, por pouco, compreensível. Mas eu não preciso de conseguir ler letra a letra palavra a palavra. Eu vejo para além da imagem no papel. É engraçado como ele consegue arranjar folhas de papel e lápis. De onde viemos estas encontram-se em Museus ou antiquários, dependendo do valor. Mas todos os dias, ou quase, aparece o mesmo lápis e uma folha de papel nova, nas costas da qual eu escrevo a resposta.

            Estou cansado demais para escrever de imediato, a manutenção da nave está cada vez mais exigente e é muito cansativo manter os sistemas de sobrevivência activos sem o gerador a funcionar. Ainda por cima sozinho a trabalhar para manter dois.

Kaew ficou assim desde que saímos de lá. Em desespero e para evitar sermos apanhados, entrei no hiper-espaço sem os devidos preparativos. Ele não estava em segurança, dei com ele tombado a sangrar da cabeça. Durante dias esteve inconsciente, mas depois acordou. Acordou com os olhos vazios. O meu amigo Kaew tinha ficado no planeta... apenas tinha conseguido salvar o seu corpo. Pensei eu isto durante algum tempo, até que um dia encontrei uma folha de papel dentro do bolso do meu casaco. Uma folha de papel, incrível. E como ele conseguiu manter a caligrafia intacta.

            Ninguém mais escreve à mão, com a evolução da portabilidade toda a gente tem, os outrora chamados, PDAs e gravadores/transcritores de discurso. Não se deixou de escrever devido a esta evolução, restam sempre os adeptos da tradição, em situações destas. Mas o que estes adeptos não esperavam era a destruição de toda a vida vegetal terrestre. A humanidade na sua estupidez não tinha ainda evoluído nessa área e continuava a depender da celulose para fabricar papel. Da noite para o dia, estas apodreceram, assim como todas as flores e em suma toda a clorofila Terrestre. Obviamente que se encontraram árvores noutros planetas, mas a necessidade de usar papel havia desaparecido séculos antes.

            Kaew raramente está parado. Passeia-se pelos corredores apertados e sem gravidade, de toda a nave. Mal acabo de lhe escrever a resposta e assino em baixo, ele aparece de súbito para me tirar a folha e desaparecer de novo. O que mais me incomoda nisto tudo é o seu ar condescendente. Não me sinto culpado pelo seu estado, não o poderia ter feito de outra forma, mas também não me deito de noite--- não me deito para dormir sem ficar um bom bocado a rebolar no assunto, sem conseguir fechar os olhos, com medo de que ao acordar tudo esteja igual.

            Nas suas cartas fala-me do seu Mundo. Onde diz estar bem e onde me quer com ele. Diz também que a viagem é fácil, basta querer. Obviamente não fala da nossa viagem espacial, pois de certeza ainda não se apercebeu que não temos combustível nem meio de o fabricar.

            Mais vale arrependermo-nos daquilo que fizemos do que daquilo que não fizemos. Será que teria sido melhor eu estar agora arrependido de ter ficado no bar em vez de seguir os conselhos idiotas da Eoui? Que será feito dela? Por um lado ainda bem que não conseguiu chegar a tempo à nave. Sei que não suportaria ver o irmão neste estado.

            Tens de ir tratar do remendo no corredor secundário. E tens de parar de te ordenar a fazeres coisas. Sim, senhor! Heh! Kaew, já faltou mais.

 

Segunda marca de água

 

            Kaew não me escreve há uns dias, nem sequer veio buscar a minha última resposta. Tenho mais em que pensar. Vou dormir porque já não durmo há umas noites--- há umas horas--- nunca me vou habituar a este tempo indeterminado. Neste momento só queria que a nave tivesse janelas, em vez destes ecrãs monitores que drenam energia como um Hervitt topo de gama, com turbo propulsores, em primeira. Tenho de poupar toda a energia que conseguir para conservar os mantimentos e para o sistema de radar e oxigenação. Talvez devesse desligar o radar, não espero encontrar ninguém nestes recantos do Universo curvo. Ou então o sistema de ar, apesar de achar que uma morte por fome talvez não fosse pior. A esperança parte sempre por último e isso é bom, a não ser que seja aquilo que nos mantém vivos, quando queremos morrer.

            Talvez não seja boa ideia matar-me. Não é. A curiosidade é tremenda. A morte dura um milionésimo de segundo, e num milionésimo de segundo a Terra gira mais meio metro. Noutro milionésimo de segundo esta nave percorre dez quilómetros à deriva. Pelas últimas indicações do radar estou a mais de 10 anos-luz de qualquer pedaço de pedra maior do que a própria nave e vou no sentido contrário.

 

Terceira marca de água

 

            Ontem adormeci com uma ideia engraçada. A de viagens no tempo. Cheguei à conclusão que a invenção da máquina do tempo é por força da razão a única invenção verdadeiramente original. É como quando entra alguém no quarto onde estamos a fazer um castelo de cartas. Tudo arrumado ao pormenor tudo pensado ao milímetro, no entanto sem sabermos bem como o fazemos. Parece-nos que aquela carta ali equilibrará melhor do que acolá. De repente alguém entra de rompante no quarto, cria uma corrente de ar e o castelo cai até às suas fundações. No entanto não é bem a mesma coisa. É mais como um castelo de areia, que de repente é totalmente derrubado pelo mar. Os grãos de areia misturam-se e nunca mais conseguiremos montar um castelo igual, com os mesmos grãos de areia colocados no mesmo sítio exactamente como o anterior. A corrente de ar, ou melhor, a onda devastadora é a primeira viagem temporal. O castelo de cartas ou de areia é a teia do espaço-tempo, para sempre corrompida.

            Só usaria a máquina do tempo para poder ouvir de novo a primeira nota musical de um violoncelo. Ou para sentir pela primeira vez o tremor nos pés da queda de um muro de 3 metros de altura. Ou então para me impedir de sair com a irmã do Sivdu. Ainda hoje o meu maxilar estala do soco que me deu. Por falar em maxilar, tenho de ir em busca do Kaew, deve estar cheio de fome. E estou ansioso para ler a última carta dele.

 

Quarta marca de água

 

            Que é a vida? Uma constante luta pela sobrevivência? Pela reprodução, pelo manter da espécie? E com tudo o resto a funcionar em redor disso? Não deve ser. Não pode ser, senão não estaria já vivo.

            Não encontro o Kaew. É impossível, não tem onde se ter metido. Procurei por todo o lado. Deixei embalagens de comida espalhadas pelos corredores mas ele não lhes tem tocado. Se houvesse gravidade já teriam pó acumulado em cima delas.

            No entanto encontrei outra folha dele. Não a li, a ansiedade desvaneceu-se rapidamente quando me apercebi que pode ser de despedida. O lápis está quase no fim. Custa-me escrever com ele e dói-me a mão direita, como se tivesse sido perfurada à superfície por uma seringa espessa. Acho que a falta de exercício físico me está a atrofiar os músculos. E a falta de mim, me está a atrofiar a mente.

 

Quinta marca de água

 

            Já não como durmo ou me mexo há mais de três dias. Kaew desapareceu. A curiosidade é cada vez mais tremenda, mas a dor é imensa. Parece que a esperança está em má forma por estes lados...

 

Corte de papel

 

            Kaew sentiu o último aperto de Clern na sua mão, e nela sentiu pousada uma folha de papel dobrada. A caligrafia quase indecifrável, devido ao tubo de soro que quase lhe imobilizava a mão. Kaew leu a folha de papel e chorou abraçado a Eoui.