É a última estória minha que tenho para por aqui. Espero conseguir acabar por escrever umas que vagueiam na minha mente. As ideias estão cá. A apatia também. Não sei quem vê este site, não tenho recebido emails por enquanto, talvez não venha a receber, mas gostaria de conhecer os vossos mundos. :)

Jaco

      Um barulho estilhaçante acordou-me. Abri os olhos rapidamente e desejei a morte pela milésima vez ao madrugador estudante de bateria, meu vizinho. Ele era, de facto, o filho do senhorio, por isso mais valia começar a habituar-me. Dirigi-me à cozinha e comecei a mascar um prato de cereais moles misturados com leite morno. Após dez minutos de constantes desejos cruéis de me voltar a deitar, decidi-me por fim a tentar um duche. Caminhei metodicamente para a casa de banho e tropecei numa coisa peluda e preta. "Ahhh" - gritei. "O que é isto?". Exacto. Tinha-me esquecido completamente que o meu amigo Pedro me havia dado a honra de tomar conta do seu pequeníssimo Labrador, de nome Jaco, enquanto ele se divertia nas águas quentes de não sei bem onde. E eu nem sequer gostava de cães. Coisa que veio depois a mudar. Levantei-me e se bem me lembro, desisti do duche porque apesar de já estar deveras atrasado, não tinha gás.

E foi assim que começou esse interessante dia em que conheci-- Isso fica para mais tarde. Peço desculpa, ainda não me apresentei, chamo-me Ricardo.

Lembro-me que apanhei o autocarro, mas não me lembro bem qual. Também não interessa. Sim autocarro, porque a vida de jovem trabalhador na cidade das Sete Colinas é dura. Lá cheguei ao emprego, cozinheiro-ajudante num snack-bar/restaurante na Baixa. Por sorte tive de esperar pelo patrão, Sr. Silva, que tinha tido problemas com a camioneta. O dia foi como todos os dias de um ajudante de cozinha, passado a ajudar a cozinhar. Mas o que interessa aqui é o que me aconteceu quando saí do restaurante, já de noite, e me dirigi a pé para casa. Lá saí de avental e chapéu debaixo do braço, embrulhados num saco de plástico, pois era Sexta-feira, dia das lavagens e da mudança do óleo das batatas fritas. Ao dobrar a primeira esquina e ao dirigir-me para a Praça do Comércio (para dar um pequeno passeio à beira rio), notei que uma pessoa estava de pé em cima de um dos ombros da estátua que lá está (que penso ser de D. José), de braços abertos e completamente vestido de branco. Ao ver-me, desceu de um salto para o dorso do cavalo e daí para a base da estátua, trepou a cercadura de ferro e caminhou para mim estranhamente, sem mexer os braços, o que lhe dava um ar roboticamente assustador. Quando chegou perto, digamos, a uns dois metros, o candeeiro sob o qual me encontrava piscou ruidosamente e apagou-se. Encontrava-me já debaixo das abobadas virado para o rio, e exactamente centrado com o arco da Rua Augusta. Olhei para a esquerda e para a direita tentando manter a calma e apenas me enervei mais. A rua estava estranhamente deserta e não se ouvia um pio, a não ser o arfar do Branco. A sua cara estava oculta pela sombra que cobria aquela zona da praça e que me abraçava. O Branco começou a falar e disse-me simplesmente: "A loira vai reclamar. O miúdo vai vomitar e o careca vai-se sujar.". Depois a luz voltou e o Branco, ainda a arfar, começou a andar ao longo das arcadas e desapareceu sem me mostrar a face. Fiquei parado não sei quanto tempo de boca aberta e com as pernas a tremer de medo e de estupefacção. Decidi apanhar um táxi para casa, e mal entrei deitei-me e dormi.

Sábado é sempre o pior dia. Entra-se mais cedo e a confusão é sempre de irritar qualquer monge o mais devoto possível. Mas assim fui, pondo de lado a memória do meu encontro com o Branco, não consegui na altura distinguir se havia sido sonho ou realidade.

Cheguei atrasado, e mal entrei percebi que algo estava mal. Uma mulher, alta e elegante, reclamava o preço do pequeno-almoço que tinha pedido. O Sr. Silva, muito calmo, tentava chamá-la à razão e sorria para mim. A mulher virou-se para uma senhora que se tinha metido na discussão e foi então que o Sr. Silva me sussurrou a piada: "É loura, que se há-de fazer...". Não consigo descrever o que senti naquele momento: "Aaaa mulher... é lou-loura..." - gaguejei aparvalhadamente. O Sr. Silva riu-se e empurrou-me para a cozinha dizendo: "’Tá tudo sobre controlo!". A partir daí, tudo me correu mal, não acertava na quantidade de sal na sopa, não conseguia distinguir alhos de bugalhos. A certa altura, Natércia, a empregada de limpeza que por vezes ficava na caixa a fazer as contas, entra pela cozinha dentro com um ar de enorme aflição: "Ricardo tens de me ajudar filho, um miúdo vomitou no chão ao pé da mesa 3, e tu sabes que se eu for lá só vou conseguir aumentar aquela pequena piscina de bife com puré e laranjada. Podias ir lá tu filho?". Acudi imediatamente, desejoso de sair da cozinha por uns momentos e despindo o avental agarrei na esfregona e balde e saí em direcção à mesa 3. Ao chegar lá, uma volta ao estômago por pouco fazia com que eu me juntasse ao miúdo no lançamento de alimentos semi-digeridos. O que eu vi foi um choque maior do que a mulher loura a reclamar. O miúdo chorava enquanto a mãe o abraçava, e o pai limpava-se com o guardanapo de pano, e o pior... o pai era careca. Distraído tropecei, mergulhando em cheio no meio da poça do miúdo: 9.5, 9.7, 9.9. Pontuação quase perfeita. Perfeitamente doridas ficaram as minhas costas. E só com ajuda me consegui levantar e sentar. Nesse dia saí mais cedo.

Ao chegar a casa apercebi-me que ainda não tinha levado o Jaco a passear. Nessa noite se a dor abrandasse iríamos os dois passear até às tantas. Não é todos os dias que se pode passear à noite pelo bairro com guarda costas, e ainda por cima sem trabalho no dia seguinte. Jantei, deitei-me um pouco a ver televisão e como os olhos tristes do cão me fitavam a toda a hora decidi sair com ele, mesmo dorido.

De facto o cão era muito especial. Não puxava a trela com muita força e obedecia a todas as ordens dadas por mim. Uma delícia de passear. Percorri metade de Lisboa nessa noite. Desci da minha rua até ao Parque Eduardo VII, desci daí até ao Marquês e segui pela Brancamp até ao Largo do Rato. De lá, resolvi atalhar até ao Príncipe Real e descer pelo Elevador da Glória, onde foi hilariante ver o Jaco a escorregar no óleo dos carris do elevador. Subi e desci a Avenida da Liberdade, parando de três em três árvores para o Jaco poder reconquistar Lisboa... talvez para os mouros. Quando me encontrava já na Praça do Rossio, decidi retentar a minha sorte na Praça do Comércio. Aquilo só podia ter sido uma encenação para me gozarem. Ao passar por lá, nada aconteceu. Nem brancos nem cinzentos lá estavam, ninguém. Também não era de estranhar. Era Sábado, e as pessoas que estavam àquela hora acordadas encontravam-se todas mais acima, no Bairro Alto. Pus-me, então, a caminho de casa, até porque as dores de costas começavam a tornar-se insuportáveis naquele frio.

Domingo era o melhor dia, era perfeito, depois da tempestade, a bonança. Manhã toda para dormir, tarde inteira para vegetar em frente à televisão. E deitar cedinho à noite porque no dia seguinte voltava à batalha. Por incrível que pareça, um cozinheiro, pelo menos eu, não se alimenta bem. Tudo comida rápida de fazer. É claro que gosto de cozinhar, digo-vos que passar o dia a cortar batatas e a temperar milhentos pratos que nem são para nós, requer gosto. Mas em casa nunca tinha os ingredientes que tinha no restaurante. Nesse domingo o descanso foi precioso. Aquela história punha-me furioso quando pensava nela. Simplesmente não tinha lógica. Santo dia.

Depois do jantar, fui com o Jaco dar mais um passeio pela bela, mas poluída, cidade. Jaco tinha ficado irrequieto depois do primeiro passeio. Dava esticões para todos os lados, e andava agora curvado de nariz no chão a cheirar tudo e todos. Ao passarmos nos Armazéns do Chiado e quando descia a Rua do Carmo, aparece por detrás de umas chapas das obras, o Branco. A primeira coisa que lhe vi foi a cara, a um palmo da minha. Os seus olhos fitavam o horizonte, a sua barba, branca também, estava despenteada. Ele, sapateava - "Tac, tac" - no passeio. Recuei instintivamente e aticei Jaco, mas este ficou radiante e de cauda a abanar. "Tac, tac" - continuava o Branco a sapatear mexendo-se apenas da cintura para baixo, braços descaídos ao comprimento do corpo. Tentei falar com ele mas nada mais ele fazia do que sapatear - "Tac, tac". Fiquei assim a olhar para o artista, uns segundos. Quando comecei a ir-me embora, contornando-o, ele parou. Virou a cabeça para o lado e, ainda a fitar o horizonte, disse: "Água, muita, batucada, fim." - recomeçou a sapatear e subiu a rua, agora abanando-se como um pêndulo com as mãos na cintura. Desatei a rir, era inevitável, os nervos e a confusão aliados à figura do homem a subir a rua explodiram em gargalhadas guturais. Caí de joelhos e agarrei-me à barriga, com falta de ar. Quando me recompus e olhei de novo para cima, vi que Jaco ia ao encontro do homem, que o esperava sapateando. Apanhei-o a meio da rua e foi um martírio para o conseguir pôr em casa.

Deitei-me no sofá. Eram pensamentos a mais para conseguir dormir, e o facto de me ter levantado depois do Sol ter ultrapassado o seu pico também ajudou à minha companheira insónia. A ideia de Jaco me ter fugido acalmou-me o espírito. Isso dava-me a certeza de que o vapor das panelas do restaurante não me tinham esgrouviado a mente e que o homem era real. Mas não explicava como previra ele os acontecimentos e porquê tão banais!

Já estava quase a alcançar o pico do monte. A neve fria, que derretia sob os meus pés, era de um branco porcelana e o vento era aconchegador apesar de frio. De repente um misto de gritos assustou-me e tropeçando numa pedra, perdi o equilíbrio e caí. Caí do sofá. Procurei uns olhos vermelhos fortes mas não consegui encontrar o relógio do vídeo. Tentei ligar a luz da sala e não acendeu. Quando o sono saiu por completo do meu corpo com a entrada do imenso frio que estava, consegui distinguir frases por entre os gritos. Eram do baterista: "A minha bateria!" - "A tua bateria? Quero lá saber, chama mas é os bombeiros!" - gritava o senhorio. Apalpei caminho até ao quarto e tirei a lanterna da gaveta da mesa de cabeceira. Depois de duas ou três pancadas ligou-se e desci as escadas até ao primeiro andar, onde comecei a chapinhar. Era água, imensa. E escorria pelo vão das escadas em cascata. Bati à porta do senhorio e gritei. Abriu-me a porta a mulher, de roupão, e eu entrei já com os ténis todos ensopados. Corri ao encontro do senhorio que me pediu para ir verificar o quadro da luz: "Mas tenha cuidado, pois aquil'ta alagado e ainda apanha um choque valente!" - disse enquanto apertava um cano com uma toalha. Ao descer as escadas, fiquei perplexo. As paredes tinham rebentado quase todas e água escorria com um caudal imenso. Verifiquei a torneira que permitia o acesso da água ao prédio mas estava demasiado presa para mover. Abri o armário do quadro da luz e recuei rapidamente fugindo às faíscas que saíam desorientadas dos interruptores e fusíveis. Corri para a rua à procura de uma madeira seca para conseguir desligar o quadro e quando ia a reentrar vejo-me reflectido na porta de entrada. Vestido com o pijama branco e como que a sapatear, chapinhando, e a arfar. "Água, muita, batucada, fim". Outra previsão correcta. Pus de lado esse pensamento e corri a desligar o quadro. Os bombeiros chegaram no preciso momento em que colocava de novo o pau na rua e trataram do assunto lindamente.

Por sorte os canos do meu andar ficaram intactos. A pressão da água diminuiu no momento em que rebentaram os canos dos pisos inferiores. Safei-me de boa. Olhei para o relógio e tinha apenas duas curtas horas para dormir. Resolvi aproveitá-las. Dirigi-me para o quarto e ao sentar-me na cama lembrei-me do Jaco. Saí da cama num salto e corri para a sala, nada. Não estava na cozinha, nem na casa de banho, nem em lado algum. Vesti-me, calcei-me e pus-me a caminho da rua, a fim de o procurar. Quando saí do prédio avistei-o logo, a descer a rua e a virar à esquerda de rabo a abanar e saltitando de pata em pata, de orelhas no ar. Corri a alcançá-lo e quando dobrei a esquina avistei-o ao fundo da rua sentado e a olhar para três pessoas que o rodeavam. Todas vestidas de branco. Aproximei-me lentamente escondendo-me atrás de cada carro progressivamente até ficar à distância da largura da rua, precisamente no passeio oposto. Os Brancos olhavam uns para os outros e para o cão sem dizerem uma palavra, até que o que estava de costas para mim disse com voz rouca: "Bem, o cão é este, tens a certeza que o queres retirar?" - disse para o Branco da esquerda. Jaco olhava atentamente para ambos de língua pendente e parecia que esperava uma resposta. O outro respondeu: "Sim, quero e já te disse porquê! Ele sabe quem somos e o que fazemos. Ainda nos vão descobrir à sua custa! A culpa de tudo isto é tua!" – disse, apontando para o terceiro Branco que se manteve calado e do qual não vi a cara.

As minhas pernas começaram a doer, por estar curvado, e quando tentei mudar de posição não consegui evitar um raspar dos ténis no passeio o que fez com que os Brancos se apercebessem da minha presença e começassem logo a fugir ao longo da rua com Jaco atrás deles. Levantei-me, pois já havia sido descoberto e chamei por Jaco, que prontamente se virou e correu para mim. No final da rua, os Brancos pararam, olharam para mim e recomeçaram a correr.

Voltei a casa e adormeci, não sabendo o que fazer nem sequer o que pensar daquela história toda. O cão retirado? Ele sabe quem são? Talvez o trabalho me fizesse esquecer aquilo tudo.

E assim foi, Segunda foi um dia normalíssimo. Dentro dos padrões de um restaurante na baixa, claro. E o resto da semana também. Aliás durante quase um mês não vi nenhum Branco. E portanto o meu cérebro arrumou as memórias de tão ilógica história no meu subconsciente. Até que um dia ele apareceu de novo.

Tinha ido passear pelo Parque Eduardo VII, ao fim da tarde do meu dia de folga. Havia deixado Jaco em casa, embora este tenha forçado a saída e quase quebrado a meio a porta de entrada. Estava demasiado irrequieto desde o encontro com os três brancos e só à noite quando já estava cansado e sonolento era possível passeá-lo.

Estava a subir pelo passeio, e quando passava perto da Estufa Fria, ouvi um ruído de arbustos a mexerem perto de mim. Parei curioso e olhei em volta procurando um animal pequeno, talvez uma ratazana, pois não estava vento nenhum e não me surpreenderia nada que o seu habitat natural fosse ali. Mas para meu espanto e susto, não foi um roedor cinzento que vi, mas sim um humano totalmente vestido de branco, sim, era ele. Estava de gatas e de vez em quando rebolava, amaçando as plantas e arbustos, e gemia de olhos fechados. Ao fim de algum tempo, quando já não estava tão branco, ficou imóvel de barriga, braços e pernas para cima e sem abrir os olhos gemeu: "Hoje. Crrr, bum! Zut, arf arf. Nhiu, ahhh." - depois, de gatas, desapareceu por entre os arbustos mais densos. Não o persegui, embora a vontade fosse imensa porque não tinha percebido nada do que me havia dito e também porque já isto tudo me enervava. Olhei em volta e notei que já havia escurecido, dirigi-me a casa a fim de jantar

Passeava com Jaco pela minha rua quando me lembrei de ir dar uma volta pelo rio. Dirigi-me à estação do Parque e apanhei o metro para a estação do Terreiro do Paço (enfim concluída após tantas peripécias). Como era já noite pensei que levar o Jaco não traria problemas, e apesar disso ele tinha menos de 4 anos logo não precisava de bilhete, encurtei a trela, entrei para a última carruagem e mantive-me de pé. O comboio arrancou e as estações foram passando, uma a uma. Mais ou menos a meio caminho, entre a Baixa-Chiado e o Terreiro do Paço, e depois de uma valente travagem, senti que voava. E de facto voava, agarrei-me ao poste vertical com toda a força e tentei puxar Jaco de forma a ele não se aleijar. Enrolei-me completamente no poste, pondo o braço esquerdo e as pernas à volta dele. Senti uma dor imensa quando o comboio embateu em algo à sua frente. À minha frente vi pessoas a voarem e a embaterem com toda a força umas nas outras. Vi malas a embaterem no tecto, ouvi os vidros das janelas a estilhaçarem. Depois, passados alguns milénios, tudo ficou calmo de novo. Ouviam-se alguns gemidos e lamúrias, algumas pessoas faziam o repertório das mazelas que haviam sofrido de forma exaltada. Ao pôr os pés no chão perdi a força e caí estatelado. Sentia o peito todo dorido e o braço esquerdo dormente. Procurei Jaco na escuridão e vi que estava bem, arfava e puxava pela trela, como que querendo ir a um sítio que conhecia. Alguém puxou o manípulo de emergência e as portas do metro abriram-se. Jaco soltou-se da minha mão e saiu num salto. A gemer e meio zonzo saí também e persegui-o com dificuldade. Apenas conseguia ver o reluzir da sua trela de metal. Jaco não corria, esperando por mim quando perdia o equilíbrio e me debruçava arquejando. Fixei a trela doentemente, e comecei a perder nitidez na visão. A luz que era reflectida pelo cromado, começou a espalhar-se como uma nódoa numa toalha de mesa e depois, desapareceu completamente. Tinha desmaiado. Acordei com as lambidelas de Jaco. Olhei em volta e já não me encontrava na linha do metro. Estava numa sala imensamente Branca. Levantei-me ainda tonto e olhei em meu redor. Encontrava-me numa sala muito estranha. A forma da sala era a do interior de uma esfera oca e debaixo de mim havia um alçapão, preto. Jaco raspava as unhas nele e então abri-o. Espreitei mas não consegui ver nada. O branco que emanava da outra sala entontecia-me e senti-me de novo a desmaiar. Fechei os olhos, inspirei e abri-os de novo. Olhei para cima e comecei a descer pelas escadas de ferro que estavam presas ao túnel que unia as duas salas. Quando cheguei lá abaixo lembrei-me que Jaco não iria conseguir descer as escadas. Recomecei a subir mas senti um puxão nas calças. Olhei para baixo e lá estava o Branco. "Seja bem-vindo." -  disse-me ele de maneira completamente normal e cordial. Olhei em volta e vi imensas secretárias que se espalhavam até uma distância que se encontrava fora do visível. Atrás de cada uma das secretárias estava um homem totalmente vestido de branco. Cada um deles tinha uma máquina de escrever e escreviam sem parar. Sem olhar sequer para o papel ou para as mãos. Fitavam o infinito. O Branco disse-me para o seguir e começou a caminhar por entre as secretárias. Ninguém olhou para mim, escreviam metodicamente a uma velocidade incrível, sem fazer qualquer barulho. O papel, esse, era contínuo. Saía de uma fresta no chão, passava pela máquina de escrever e depois entrava de novo noutra fresta, desaparecendo de vista. Não consegui ler nada do que estava escrito em nenhum dos papéis, pois passavam a uma velocidade enorme. Apressei-me de forma a alcançar de novo o Branco que seguia já bastante à frente. Quando me aproximei, ele parou, e virando-se para mim, disse:

- Aqui se escrevem vidas. Aqui se escrevia a tua vida. Aqui, eu escrevia a tua vida. Acontece que também a minha vida é escrita, não aqui. E o meu rolo de papel está no fim. Senti que a única coisa que poderia fazer em relação a isso era trazer-te aqui para escreveres tu também a vida de alguém. A escolha é tua, ou te juntas a eles, ou terei de escrever o final da tua vida.

E assim foi, escolhi ficar. Neste momento estou aqui a escrever esta história, não num rolo mas num papel que escondo debaixo da almofada da cadeira. Vou voltar à escrita da qual vivo agora. Onde ia? Ah, a pessoa estava a ler uma história sobre um cão.

FIM