Foi a primeira estória que escrevi, a introdução aconteceu-me mesmo... a partir daí é ficção.

Kage

            Caminhava mecanicamente, sem consciência do que o rodeava. Estava encharcado, a água escorria-lhe pelos cabelos, pingas imobilizavam-se no queixo para depois se lançarem num infinito mergulho. Arquejava mas não de cansaço. Tirou a bomba do bolso do casaco ensopado, levou-a à boca e bombeou três vezes. Sentiu os microgrãos embaterem no céu da boca e o azedo percorrer-lhe a garganta. Maior parte tinha entrado directamente nos brônquios e respirava melhor, mas o amargo de boca incomodava-o, nada podia fazer. Como reflexo à luz de um relâmpago, do qual não ouviu o estrondo, a sua íris mirrou, ao fundo da avenida viu, desfocados, dois faróis que faiscavam melindrosamente encandeando-o. O carro passou em silêncio, pelo menos para os seus ouvidos. A avenida estava de novo deserta, e para ele era melhor assim. Sentia-se miserável e não queria encontrar ninguém. Continuou assim pela noite fora.

            Agora, encontrava-se deitado, debaixo dos lençóis sujos e cobertores com cheiro a naftalina. Tinha por fim adormecido.

            Acordou já o Sol desaparecera por detrás dos prédios em frente da sua janela. Há vários dias que não o via, nem sentia o seu calor. Tentou saber quantos, mas não conseguiu. Sentiu ardores na pele em diferentes zonas e ao tirar o trapo a que chamava pijama viu enormes golpes na pele. O frio da noite passada tinha-lhe tirado a sensibilidade, e ainda bem. Tinha de tratar aquelas feridas antes de sair novamente. Dirigiu-se à casa de banho e do armário espelhado por cima do lavatório rachado, tirou o álcool. Esfregou-o arduamente nos golpes com o pano mais limpo que encontrou.

            Voltou ao quarto, a vela apagara-se. Havia gasto o último fósforo na noite anterior. Não podia acender a lâmpada eléctrica que pendia do tecto envolta em teias de aranha. Até porque nunca funcionara, e sentia-se mais confortável no escuro. Escuridão esta entrecortada pela luz azul-celeste, de néons, que periodicamente lhe invadiam o quarto vindos do exterior. Habituara-se a esses néons. Marcavam-lhe o ritmo quando estava em casa. Sobre uma cadeira de madeira, estavam as calças de ganga que foram em tempos azuis, a t-shirt de cor indefinida e o blusão impermeável, já secos. Abaixo do colarinho do casaco, do lado de dentro, estava uma etiqueta com instruções de lavagem (qual lavagem?), onde estavam as letras, K-A-G-E, escritas a marcador. Kage era o seu nome. Ou pelo menos o que lhe chamaram em tempos. Agora já ninguém se servia deste nome, era apenas uma maneira de se manter vivo, e a única coisa que tinha a certeza de ser verdadeira.

            Chegara a hora de sair de novo à rua, e vaguear pela cidade.

            Ao sair do prédio, virou à esquerda como sempre fazia, e caminhou de mãos nos bolsos. Não chovia e a noite estava quente. Desabotoou o blusão e sentiu a brisa morna acariciar-lhe o pescoço. Sentia-se bem, verdadeiramente bem, como nunca se havia sentido durante anos. Atravessou a estrada, enveredou por um beco e desapareceu, simplesmente. Voltou a aparecer no mesmo local quatro horas depois. Vinha de blusão fechado e o rosto branco gelado. Trazia nos olhos uma expressão de terror. Mas não um terror novo, era antes um terror ao qual se habituara, e contra o qual já não se opunha.

            Durante as duas semanas seguintes repetiu o mesmo.

            No inicio da terceira semana, virou à direita. Não conhecia nada por estes lados e, por isso andou cauteloso. Atravessou a estrada olhando para os dois lados, e do outro lado contemplou o lado esquerdo da rua. Sentia-se parte dele e ao vê-lo assim de fora, assustou-se.

            Voltou para casa antes do amanhecer.

            As feridas haviam já sarado todas, nunca descobriu o que as causara.

            Na última vez que entrou no beco desapareceu por largos meses. Quando saiu vinha diferente. Trazia um brilho nos olhos. Tudo havia falhado. Virou à esquerda, a sua "esquerda"  e não parou em frente do seu prédio, seguiu em frente. Desapareceu dos olhos ténues dos candeeiros da rua. Nunca mais estas luzes o iluminaram.

 

I

 

            Kage é um empresário bem sucedido, a sua empresa vai de vento em popa e a concorrência está longe de ser ameaçadora.

            É um homem dominado pelo trabalho, não tem família, não tem amigos. Apenas os empregados que dirige, e aos quais se aproxima apenas o suficiente para conseguir trabalhar. Ás reuniões vitais para a sua empresa manda o seu "braço direito", ou melhor, a pessoa que está mais próxima de si e na qual tem alguma confiança. Sente-se feliz assim.

            Depois de toda a gente ter abandonado os postos de trabalho, Kage, volta ao seu apartamento.

            Fica na baixa, um apartamento pequeno, mas confortável e acolhedor. É limpo diariamente da parte da manhã quando não está lá, por uma senhora que nunca conheceu. Deixa-lhe o ordenado em cima da mesa da cozinha e comunica com ela através de recados. Esta sua fobia em se cruzar e comunicar com outras pessoas, aterrorizou-o em tempos, agora apenas se sentia bem assim. Não se imaginava rodeado de homens e mulheres sorridentes e prontos a começar um diálogo seco e cínico, só para não estarem calados. Quando o fazia sentia-se mal, e por isso raramente pensava no seu medo. Habituara-se a viver com ele e sentia-se verdadeiramente feliz, sozinho.

            Não tem televisão, apenas livros, imensos livros, os quais já leu mais do que uma vez. Não se farta das suas histórias, imagina-os diferentes a cada vez que os lê. As únicas noticias que lhe interessam recebe-as no trabalho por meio de jornais, faxes ou cartas. Noticias relativas ao desempenho da sua empresa e do mercado na qual se encontrava.

            Rodou a chave quatro vezes e entrou no hall, acendendo a luz. Foi ver as mensagens no telefone e a luz vermelha não estava a piscar. Lembrou-se de que nunca a tinha visto a piscar. Nunca ninguém lhe telefona. Despiu o casaco comprido tirou as botas e arrumou-as no guarda-fato. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Acordou duas horas mais tarde. Levantou-se, espreguiçou-se, e foi para a cozinha, onde viu um post-it amarelo colado ao frigorífico. Devia ser da senhora da limpeza: "Obrigado Sr. Kage, muito obrigado.". Nunca soube o nome dela, sabia apenas que era uma imigrante ilegal, e por tal achou mais seguro ser assim. Ela agradecia o aumento que Kage decidira dar-lhe. Nunca o pedira.

            Para além das limpezas também lhe cozinhava as refeições deixando-as em tupperwares, junto ao fogão. Apenas tinha de as aquecer. Jantou, pôs a loiça no lavatório e foi para a sala. Nunca trazia coisas da empresa para casa. Não queria que a sua casa fosse invadida pelo stress lá existente. Por isso pegou no livro que começara a ler na noite anterior. De repente o telefone tocou! Levantou-se do sofá num salto e ficou especado a olhar para onde vinha o som estridente. Parecia vir de dentro do seu crânio. Será que devia atender? Avançou melindrosamente e pegou no auscultador: "Kage..." - gaguejou. "Sr. Kage! Sr. Kage! Aconteceu uma coisa horrível!" - a voz era completamente nova, nunca a ouvira antes, pelo menos ao telefone. Kage permaneceu calado e a voz continuou apressada. "Não lhe posso contar ao telefone, venha ter comigo à avenida, saberá onde me encontrar!". Ao desligar o telefone notou que não sabia se a voz era de homem ou de mulher.

            Ao sair do prédio pisou uma poça de água. Por sorte não muito funda. Sacudiu a bota e seguiu em direcção à avenida. Ficava a dois quilómetros de distância, quinze minutos a pé.

            Quando chegou lá, soube para onde se dirigir. Aquela avenida e tudo o que ela constituía parecia-lhe muito familiar. Assustadoramente familiar. Nunca passara ali. A sua empresa fica do outro lado da cidade. Quando voltou a si, viu-se num beco escuro. Não tinha  medo, era no escuro que se movimentava bem. Avançou até ao fundo deste, fechou os olhos e ao abri-los de novo, viu-se num imenso universo preto. Não sentia o chão debaixo dos seus pés. O silêncio era tanto que conseguia ouvir o fluxo sanguíneo nos ouvidos e o pulsar do coração. Não sabia se se encontrava deitado ou de pé, apenas sentia a roupa. Sentia-se leve e reparou que não tinha as plantas dos pés assentes no fundo da bota.

            Passados segundos apareceu diante de si uma série de imagens. Eram fotografias de uma cidade. Ao olhar para elas sentiu-se bem, sentiu-se como em sua casa, sozinho. Viu então que o sentimento provinha do facto de a cidade se encontrar deserta. As construções não eram como as de agora. Eram construções... "Futuristas!", pensou. Quando piscou os olhos viu-se de novo no beco, estava deitado no chão. Um gato passou perto dele. De resto, tudo era silêncio. Ao chegar a casa sentou-se no sofá. Sentiu o livro debaixo de si e retirou-o de lá, amachucado. Nessa noite não leu mais. Mas também não conseguiu pensar no que lhe acontecera.

 

II

 

            Uma criatura sem cara, com dois vermelhos olhos apenas, puxava-o não sabia para onde e emitia um ruído agudo e repetitivo. Paralisado de medo apenas se deixava arrastar... acordou sobressaltado com o barulho do despertador, que tocava à largos minutos, a suar.

            Quando chegou ao seu gabinete encontrou apenas uma carta. Não tinha remetente. Sorriu ao vê-la e encolheu os ombros, "Fica para depois de almoço", pensou. Saiu.

            Pensou em ir ao seu restaurante habitual mas ao pensar na monotonia que seria, decidiu experimentar outro. Atravessou a estrada, ziguezagueando por entre os carros e seguiu ao longo do passeio. Olhou para o outro lado da rua e viu uma mulher a acenar para ele. Virou a cara e ao olhar de novo a mulher desaparecera. "Entrou no prédi...o...", pensou. E seguiu.

            Voltou hora e meia depois e já se tinha esquecido da carta quando se deparou de novo com ela. Pegou nela e abriu-a. Era uma carta do Exército Nacional e vinha carimbada como CONFIDENCIAL. Meio nervoso e apreensivo tirou-a completamente do envelope e desdobrou-a. Passou o dedo pelo carimbo branco, como que para fazer tempo e deu uma vista de olhos por todas as folhas. Era longa. Entre blablas e conversas politicamente correctas, vinha uma proposta verdadeiramente assustadora. Informavam-no que iria colaborar com eles num projecto que visava o criação e produção de armas biológicas. BUM! Sentou-se abruptamente na cadeira e deixou cair a carta. Era este o momento que tanto receava. Desde que a sua empresa começara a ter sucesso que esperava isto. Na carta vinha o "pedido" que ele entrasse em contacto com ELES assim que acabasse de ler a carta. Foi o que fez.

            Ao regressar a casa lembrou-se do estranho acontecimento da noite passada. Teria mesmo acontecido? Aqueceu o jantar e comeu. Sentou-se no sofá a ler o enorme dossier que lhe havia sido entregue pelo EN. Para além de uma exaustiva explicação técnica, altamente confidencial ("Se perder este dossier será preso por espionagem.", disseram-lhe), tinha também inúmeras fotos, tanto de cápsulas de bombas como de fotos dos locais onde tinham sido testados os primeiros projectos. A que mais o chocou foi uma sequência de imagens do tipo ANTES/DEPOIS, de uma cidade onde haviam sido postos vários animais e na qual tinham posto uma das bombas biológicas. Não foi tanto o facto de os animais terem desaparecido todos que o chocou (não era novidade que tal acontecia), mas sim o facto de esta imagem lhe ser familiar, não... não era a imagem mas sim a sensação que teve ao vê-la. Esta imagem era do tipo que havia visto no... beco?... estaria no beco quando a viu? De repente percebeu tudo. Tinha de conseguir rejeitar esta proposta. A todo o custo.

 

 

 

III

 

            Algo ou alguém o tinha preso numa espécie de caixa, escura, e estavam a martelar ou a bater caixa. Estava quente, quente demais, sentia-se abafado. Começou a espernear com o objectivo de quebrar as paredes e caiu da cama enrolado nos lençois e cobertor.

            O som vinha da sua porta. "Eu tenho campaínha!!!" - pensou enraivecido. Vestiu à pressa o robe e foi atender. "Bom dia Sr. Kage. Gostaríamos de falar consigo.". Com o sono Kage apenas conseguiu perceber que eram um General e um Capitão, isto pelas divisas que tinham nos ombros. Encaminhou-os para a sala e ofereceu bebidas. Não sabia como receber as pessoas em sua casa, portanto demorou um pouco a perceber que pediam licença para se sentarem. "Não falam, sei lá que querem!!!" - outro pensamento agressivo, havia começado mal o dia. Ainda por cima um sábado. E não esperava melhorias.

            - "Presumo que já tenha olhado para o dossier que lhe foi entregue" - disse o Capitão.

            - "Sim, sim, já dei uma vista de olhos, mas ainda não percebi que pretendem de mim.

            Pela carta entendi que queriam alguém que as fizesse, mas pelos vistos já as fazem e muito bem."

            - "Penso que devemos ir com calma, e também penso que não deve tirar conclusões precipitadas." - respondeu o Capitão num tom calmo, calmo demais. O General apenas olhava para ele, costas direitas, e acenava. - "Como deve saber, bem... entender..., não foi o único a ser contactado. Chefes de empresas suas concorrentes, ou não, foram contactados também, e foi-lhes entregue exactamente os mesmos documentos. Bem, o que quero deixar bem claro com tudo isto, é que você Sr. Kage, não é essencial para esta.... digamos que missão, compreende porquê não é?"

            - "Bem, sim compreen..."

            - "Magnífico! Então estamos entendidos quanto a esse ponto. Prosseguindo então, devo dizer-lhe que se não quer participar neste projecto, sim é um nome mais adequado... Que se não quer participar neste projecto, deve dizê-lo já e não perderemos mais tempo consigo. Então?"

            Era agora ou nunca, Kage tinha de se decidir, mas assim agora, ainda mal abria os olhos. Foi então que se lembrou do beco.

            - "Sim, estou interessado em entrar no vosso projecto."

            Rindo, o Capitão disse:

            - "Nosso, meu caro Kage, nosso! Após assinar este documento, estará tão envolvido nele como os animais de testes! E aconselho-lhe muita precaução, pois pode magoar-se se cometer algum erro."

            O documento foi assinado. E após um clássico: "Nós entraremos em contacto consigo." - o Capitão e o sinistro General retiraram-se.

 

IV

 

            Nessa noite o telefone tocou pela primeira vez. Mas desta vez Kage não se assustou, já esperava o telefonema. Atendeu com um "Sim..." e do outro lado uma voz grave e catarrosa disse: "Kage, presumo." - "Sim." - Havia prometido a si próprio que apenas falaria o suficiente. - "Prepare tudo na sua empresa pois não poderá lá ir durante as próximas semanas. Boa noite." - Ia-se a despedir mas quem estava ao telefone já não era a mesma pessoa, apenas um "Tuuu" irritante.

            Pousou o telefone, e levantou-o de novo, teria de fazer os telefonemas necessários agora pois no dia seguinte já seria domingo.

            Depois de tudo despachado sentou-se e recomeçou a vasculhar o dossier. Continuava sem perceber porque queriam tantos químicos e físicos. Claro! Não eram químicos e físicos  normais. O plano deles estava agora voltado para a produção. E não para a invenção. Por isso queriam empresários, fabricantes. Mas para que raio queriam eles tanta produção. Teria de esperar pelas respostas até Segunda, isto se alguma vez as conseguisse. Continuou a ver o dossier, e foi vendo que os textos estavam escritos de maneira estranha. Como se falassem muito bem e claramente de tudo mas sem explicarem nada com pormenor. Obvio! Nunca iriam espalhar dossiers pelo país explicando detalhadamente em que consistia o seu plano. Mais valia imprimir tudo num jornal!

            O telefone começou a tocar novamente, pela segunda vez. Kage levantou-se e levantou-o, desta vez sem dizer nada. O silêncio do outro lado da linha era entrecortado por um respirar ofegante e nervoso. Passados alguns segundos: "Preciso que vá de novo ao beco na avenida, é essencial ir lá, mas se não for não o censuro." - e desligou. Kage, ficou ainda uns momentos de telefone no ouvido. Pousou-o e então apercebeu-se, a voz, a mesma do primeiro telefonema, era de uma mulher. Lembrou-se automaticamente da mulher que encontrara na sua... nas suas horas de almoço. Acenara-lhe e depois desaparecera, simplesmente desaparecera. Podia ter entrado no prédio, sim, mas porque lhe acenava uma mulher totalmente desconhecida? Bem nada melhor do que ir ao beco. Talvez a encontrasse lá.

            Mas não, tal como esperava, para além de dois gatos a lutarem por um bocado de pão, mais ninguém se encontrava lá. Entrou e a "coisa" aconteceu. Desta vez parecia que se movia. Mas não sentia vento, apenas uma ligeira e confortante sensação de movimento. Olhou para o seu corpo e não o viu. Moveu as mãos e não viu o seu movimento. Seria do escuro? Desta vez não foram várias imagens que lhe apareceram à frente. Foi antes como que rodeado por figuras de vários homens e mulheres. Apenas a face se via, e estranhamente os olhos eram todos iguais. As bocas estavam quietas, mas ouviam-se murmúrios imperceptíveis. Aqueles olhos, aterradores, todos expressando o mesmo, a falta de sentimentos, olhos de uma só cor, preta. Inexpressivos. As figuras fecharam o cerco irradiando uma luz intensa, e no momento em que quase conseguia tocá-las, a imagem que o rodeava tornou-se completamente preta, aparecendo lentamente o beco, ao ritmo a que os seus olhos se habituavam à escuridão. Na entrada do beco viu a sombra de uma mulher que fugiu. Correu para a apanhar, mas quando chegou à estrada, apenas viu passeio.

 

V

 

            Encontrava-se agora na estação de comboios local, à espera do comboio. Haviam-lhe telefonado no dia anterior a combinar em que estação devia sair e onde se dirigir. Estaria um carro preto de vidros escurecidos ("Que original!" - pensou escrevendo tudo numa folha) junto à estação.

            Entrou na parte de trás do carro e pousou a mala, contendo o dossier e os seus bens, no lugar ao seu lado. Quando ia a falar, sentiu-se tonto e desmaiou.

            Foi acordado já dentro da base e reconheceu de imediato o Capitão que havia estado em sua casa. Atrás dele estava o General acenador. "Bom dia Sr. Kage, sente-se bem? Quer um copo de água? Uma bebida? Sei como esses "ensonadores" dão cabo da cabeça! Haha! Mas bem, vai ter de se habituar." - disse muito jovial. "Sim apenas um copo de água por favor, sinto-me meio agoniado."

            "Bem, já se deve ter apercebido que está na marca zero deste projecto, e portanto não poderá voltar para trás. Espero que tenha feito exactamente o que lhe foi dito pelo meu assistente, trazendo tudo o que precisa e dando uma desculpa aceitável lá na sua empresa...  talvez umas férias não? Haha! Já se sente melhor? Óptimo, vamos então ter com os outros."

            Caminhámos durante cerca de cinco minutos até chegarmos a uma espécie de sala de reuniões, mas uma sala diferente do que era esperado. Esta tinha bastante mais luz do que as  dos filmes. "Bem, realmente quando se decide o futuro de um país o melhor é ver bem as coisas. Hehe!" - tentou Kage humorar-se. Foi o primeiro a chegar e portanto teve direito a escolher o lugar. Sentou-se na primeira cadeira que apanhou, não podia aguentar mais tempo de pé. Ainda bem que ficaria ali hospedado durante o tempo do projecto. O resto do grupo chegou logo a seguir e começaram-se a sentar.

            Estranhamente não reconhecia ninguém. Pensou que talvez alguns fossem empresários também. Após a apresentação de cada uma das pessoas, percebeu que apenas um empresário havia sido escolhido, Kage. Tínhamos um Físico, um Químico, uma Matemática, um Biólogo e uma Engenheira. Isto para não falar do Capitão e do seu ajudante General. Começou a discussão.

 

VI

 

            Após a primeira semana Kage estava já arrependido de ter aceite o trabalho. Mas parece que era o único. Vivia rodeado de masoquistas loucos e que ainda por cima não paravam de falar das experiências. Já era mau ter de assistir a elas, quanto mais passar uma noite em claro a ouvir cientistas frenéticos a deambularem sobre o que seria possível fazer se isto e aquilo. Tinha de arranjar maneira de escapar dali. A sua ideia de conseguir parar tudo tinha desaparecido da sua mente no primeiro dia quando percebeu a dimensão disto tudo, e quem tinha por detrás. Portanto, apenas queria estar fora dali quanto os resultados pretendidos fossem conseguidos. Começou nessa mesma noite a arquitectar a sua fuga, enquanto dava uma volta pelo pavilhão fumando um cigarro. Havia câmaras em todos os corredores e guardas no portão central, armados. Pelas palavras do Capitão no seu primeiro encontro aqui atirava-se a matar. Teria de ter cuidado. Não arriscaria a vida para fugir desde sítio. Talvez até lhe passasse este capricho. Não, claro que não. No dia seguinte recomeçariam os testes e a agonia voltaria a todo o vapor, tinha a certeza disso. Portanto havia que começar desde já a perceber a segurança do edifício.

            Nessa noite voltou para o quarto e dormiu sossegado.

            "Foooo... Foooo..." - berros agudos atordoavam-lhe os ouvidos e não conseguia perceber o que significavam. Tentou abrir os olhos e não conseguiu. Foi acordado aos berros pela Engenheira, que estava hospedada no quarto à esquerda do seu, e pelo Físico, do quarto à direita. Gritavam fogo e o fumo já se havia instalado em todo o quarto de Kage. Correram para o corredor e daí escoltados para o exterior do edifício onde os soldados se preparavam para combater as chamas. "Raios! Raios!" - gritava o Capitão para os soldados. "Seu ignorante! Se o podesse despedir... Argh!" -  gritou para um homem vestido de branco que olhava para o chão, segurando na mão um chapéu... um chapéu de cozinheiro, só podia ser o cozinheiro. Talvez um acidente na cozinha tivesse provocado o incêndio. Kage dirigiu-se ao Capitão e perguntou por pormenores. O Capitão caluniou com mais alguns soldados e por fim virou-se para Kage explicando. "Foi o idiota do cozinheiro que deixou o óleo ao lume! Vejam bem um projecto ultra-secreto e posto em jogo por causa de uma porcaria de umas batatas fritas!" - bafejou por fim. Kage percebeu que não era a melhor altura e retornou para perto dos outros, que estavam ainda de pijama tal como ele. Ao olhar em volta reparou num pormenor que o encheu de alegria. Não havia guardas no portão, estavam todos destacados para combater as chamas de certeza. Esta era a sua oportunidade de fugir. Afastou-se dizendo que ia ao WC e percorreu o edifício pela parte lateral junto à rede, onde ninguém se encontrava. O fumo saía das janelas da cave, onde era a cozinha, e envolviam-no num lençol quente e gorduroso. Ao chegar ao fim da parede lateral encostou-se e espreitou para ver se alguém ali estava. Outro grande golpe de alegria atravessou a sua alma quando verificou que também o portão das traseiras estava sem vigilância. Correu o máximo que pode com os seus chinelos e ao sair do portão atirou-se para os arbustos que escoltavam a estrada, escapando por um triz à luz dos faróis de um Jeep que estava a chegar. Deixou-o passar e levantou-se rapidamente deixando os chinelos para trás, de maneira a correr mais rápido.

            Quando chegou a uma estrada perpendicular à da entrada parou estupefacto. A mulher misteriosa estava sentada dentro de um carro e acenava-lhe da mesma maneira de antes. Com olhos inexpressivos e boca pendente. Correu para o carro e sem pensar no assunto abriu a porta e sentou-se. Mal fechou a porta o carro arrancou, suavemente. Passaram por mais alguns Jeeps mas sem problema.

            A mulher, de cabelo preto liso e comprido, pele pálida muito branca, guiava robóticamente, de costas muito direitas, e não tirava os olhos da estrada. Quando chegaram à auto-estrada disse apenas: "Ponha o cinto de segurança." - numa voz seca. Bem, que havia Kage de pensar, até agora tudo bem, havia conseguido escapar e só queira voltar para casa são e salvo, e esta parecia a melhor solução. Não, claro que não, ideia mais infantil. Não poderia voltar para casa. Primeiro, havia deixado tudo na Base. Documentos, chaves, tudo. E onde haviam eles de procurar primeiro? Obviamente que também não poderia voltar à sua empresa. Sentia-se triste, fracassado. Não havia conseguido sabotar o projecto e havia lixado a sua vida. Olhou em volta e não reconheceu a estrada por onde seguiam. Tinha de se deixar guiar pelo tempo agora.

 

VII

 

            Pararam em frente a um prédio imundo, no bairro mesmo adjacente ao seu... Sim podia já dizer antigo bairro. Era uma ideia genial. Esconder-me precisamente atrás das gabardinas deles. "Esta é a sua nova casa." -  disse, apontando a porta. Kage saiu e começou a entrar no prédio quando se lembrou que não tinha as chaves. Virou-se para as pedir à mulher mas o carro já lá não estava. Subiu e riu-se, a porta mal se aguentava em pé. E a chave estava na fechadura.

            Nessa noite pensou na estupidez que tinha sido aceitar aquele projecto. Mas também, havia sido confuso a maneira de eles lidarem com Kage. Primeiro informando-o que iria trabalhar para eles e depois dando-lhe a hipótese de desistir? Se soubesse quem estava por detrás do projecto naquela altura, tinha dito não. Mas aceitariam? Não sabia! Nesse resto de noite não dormiu e foi entristecendo cada vez mais.

            De manhã acordou com o frio que entrava pela janela aberta. Foi fechá-la e reparou em dois carros iguais ao carro no qual tinha ido para a base. As buscas haviam já começado. Seria melhor não sair naquele dia. Talvez à noite. Tinha o pressentimento que o beco lhe daria a solução.

            Durante anos regressou do beco sem ter a resposta que queria e agora caminhava mecanicamente, sem consciência do que o rodeava. Estava encharcado, a água escorria-lhe pelos cabelos, pingas imobilizavam-se no queixo para depois se lançarem num infinito mergulho...

 

FIM