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Não é ideia original, é baseada num clip de Radiohead, Pyramid Song, vi o clip, adorei e tentei passar para uma estória. Também não é plágio:)... bem, fica ao vosso critério. Não sei a data em que a escrevi mas foi na altura em que o clip ainda passava muito na TV.
Último Mergulho |
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Primeiro As
bolhas de dióxido de carbono rodeavam-no enquanto descia metodicamente.
Inspirando e expirando devagar para o corpo se habituar à variação de pressão.
Verificava o tubo em cada 10 segundos. Não queria falhar estupidamente. A água
era fria e não límpida. Impurezas, pedaços de algas pairavam num ambiente denso
e escuro. A sua lanterna faiscava de vez em quando e isso irritava-o porque
perdia momentaneamente o rumo e a coragem. O escuro entontecia e petrificava-o
de medo. Segundo Acabou
de arrumar tudo no barco e pagou ao vendedor, deu-lhe o seu ultimo tostão. Para
onde ia não ia precisar mais de dinheiro. Puxou o cordel no lado do motor e o
ronco deste fez-se ouvir através do ténue ar da madrugada por toda a vila. Não
era o único barco a sair àquela hora. Vários grupos de pescadores saíam já,
rumo a mais um dia de trabalho. Maior
parte dos homens eram pescadores naquela altura. O mar havia engolido maior
parte da Terra e apenas metade da população sobrevivera. Sentou-se
na ré do seu barco e rumou ao horizonte. A fim de encontrar a felicidade. Olhou
uma última vez para terra firme e não sentiu pena de a abandonar. Inalou o
cheiro a óleo, coçou a barba branca e mirou o Sol, que se levantava preguiçoso. Terceiro Quando
chegou ao local, o que coincidiu com o acabar de gasóleo no depósito do barco,
preparou-se para dar o seu último mergulho. Ligou os tubos ao escafandro e à
bomba de ar, puxou vários metros do tubo de ar e deixou-se abraçar suavemente
pelo mar. Quarto Havia
começado a sua descida há precisamente 15 minutos e ainda não havia sinal do
fundo. Afastou o tubo da frente do seu visor para olhar maravilhado para um
cardume de peixes transparentes. Estes apenas podiam ser vistos devido a uma
linha púrpura florescente que lhes percorria o interior da espinha dorsal, e
claro devido à luz da sua lanterna. Não
deixara um cartão de despedida para trás. Aqueles que lhe eram queridos haviam
morrido na mesma altura da grande cheia. E nunca mais havia falado com ninguém,
talvez por medo de o poderem acusar. Verificou pela centésima vez o tubo de ar.
Estava tudo bem. Outro
cardume de peixes passou à volta dele, desta vez muito vulgar. Peixes
prateados. Deixou de respirar e sentiu-se em paz. Aquele silêncio aconchegava-o
e acarinhava-o de maneira doce, como os seios nus de uma mulher que abraça o
seu amado enquanto este adormece. Quinto Avistou
a Torre da Igreja, inundada, claro. Inundada também havia sido a sua fé em o
que quer que fosse. Ao chegar ao telhado desta parou a descida. Olhou para
baixo mas não viu nada. A água havia adensado nos últimos metros a uma
velocidade enorme e tinha de descansar um pouco. Deitou-se e olhou para cima.
Era como se estivesse deitado num relvado na terra a meio da noite. Fresco,
silencioso. Apenas havia uma diferença. A falta das estrelas no céu. Estrelas
guias, também não precisava delas agora, pois a sua guia era a gravidade. Aproximou-se
da berma do telhado e com um pequeno e desnecessário impulso pôs-se de novo em
queda livre. Teve o cuidado de verificar se o tubo não ficara preso e continuou
a descer sempre tocando com a mão direita na parede da torre esperando
instintivamente ouvir a qualquer momento o badalar dos seus sinos. Sexto Embateu
fortemente com a sola das botas no chão. Desprevenido tombou para o lado,
largando a lanterna. Havia perdido o contacto com a torre, a sua verdadeira
guia, e desesperado nadou às voltas até a encontrar de novo. Parou encostado à
parede e sentiu vontade de gritar por ajuda. Controlou o medo e preparou-se.
Verificou o estado do tubo, agarrou na lanterna e seguiu para Este, onde ficava
o seu destino. Ao
passar pelas ruas via carros estacionados, tombados ou mesmo acidentados por
entre os jardins das casas. Viu uma bicicleta pequena e ficou aliviado por não
ter visto o seu antigo ocupante. Virou à esquerda e parou em frente à casa
número 68. Sétimo Dirigiu-se
ao alto portão e tentou abri-lo, queria fazer como sempre havia feito, antes da
inundação. Sempre funcionara. Não conseguiu e passou por cima do muro, pousando
mesmo ao lado dos baloiços. Empurrou o do meio e sem o ver regressar
lentamente, avançou para a porta de entrada. Espreitou pela janela mas os
cortinados estavam corridos. Ainda bem. Tentou o manípulo e este cedeu. Avançou
a perna direita e com um salto atabalhuado entrou na casa. Sentiu um puxão e ao
perceber que era o tubo a soltar-se inspirou pela última vez. Olhou em volta.
Um quadro com desenhos coloridos, já muito esborratados, tinha escrito,
imperceptível, "Para o melhor Pai do mundo!!!", ele sabia que era
isso que havia la estado escrito. Conhecia de cor tudo o que o rodeava e sentiu-se
verdadeiramente feliz. Sentou-se no sofá. O seu sofá. E fechou os olhos,
recordando tudo o que tinha vivido naquela casa com quem verdadeiramente amava. Último Dois
peixes voadores saltaram à tona da água fugindo a um cardume de atuns que
passava por perto, enquanto o tubo chegava à superfície jorrando ar em forma de
bolhas. |